
Amanhecer é preciso
A infância é a manhã da vida. É quando se é criança que de fato se é algo na vida, pois todas as outras fases não são, mas estão. É somente a criança que não tem a maléfica noção do futuro. Apenas esses seres humanos da manhã é que conseguem viver o sol de cada dia e não se cansar de sua luz, porque ser criança é ter luz. Ser criança é viver amanhecendo, é nunca acordar, é não se preocupar com roupas, status, críticas, em parecer, em perecer, ter, estar e ser. Sempre fui saudoso, e já na manhã de minha vida sentia-me constantemente nostálgico. Na maioria das vezes apenas observava em extremo silêncio as crianças que eram a própria manhã; eu mesmo sempre fui um expectador do dia, da calma, da alegria, muitas vezes sentia-me, e ainda hoje percebo esse aspecto próprio, feliz apenas em quedar-me observando os sóis de minhas manhãs, das quais nunca fui eu próprio qualquer tipo de sol. Mas isso não é ruim, tampouco triste, pois se me recordo dessa época é com sincera alegria e muita saudade, a qual é a prova dos nove da alegria.
É curioso a maneira com a qual ainda hoje me surpreendo assistindo a vida dos outros: não por curiosidade futriqueira ou por falta do que fazer, mas por admiração; não por inveja ou por preconceitos, mas por sincero interesse e surpresa, pois sim, a vida ainda tem me surpreendido, principalmente a vida dos outros. Os outros são especiais, românticos, altivos, sinceros, falsos, espaciais, amigos, inimigos, casados, solteiros, crianças, velhos, surtados, esportistas, escritores, leitores, cômicos, trágicos, cheirosos, fedidos, adjetivos. Subjetivos. Os outros, vocês, continuam me surpreendendo. E todos já foram crianças! Dá pra imaginar? Pois é o que eu tento, pois imaginar o outro quando criança é dar crédito à paciência, à cordialidade. Ainda é possível olhar nos olhos de cada um e ver traços de luz.
Amanhecer é preciso.