Kandinsky

Kandinsky
looking for the rabbit...

sábado, 21 de março de 2009

Ordem e Progresso



Do ônibus vi a loja de eletrônicos, toda em azul, vermelho e amarelo. Era impossível não notá-la. A televisão era de plasma, quarenta e duas polegadas, PL42A450 - (1024 X 768 Pixels), de alta definição (HDTV Ready), entradas HDMI e PC. O valor era de mil oitocentos e noventa e nove reais. Em frente à loja estava a caixa vazia de uma dessas televisões e, dormindo sobre ela, um garoto que, com dezesseis, nunca passará dos dez anos. Não é impossível percebê-lo.

domingo, 8 de março de 2009

Inverno



Hoje, pela janela, senti uma intenção de outono. Sentado e organizando meus livros percebi que entre as ondas de calor já as atravessam feixes de outono e, o mais curioso, é justamente a sensação de que tais feixes vêm dando notícias do inverno. Trocando em miúdos, acho que o inverno me fez uma visita, rápida, de médico. Mas veio, e já o espero.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Amanhecer é preciso


Amanhecer é preciso

A infância é a manhã da vida. É quando se é criança que de fato se é algo na vida, pois todas as outras fases não são, mas estão. É somente a criança que não tem a maléfica noção do futuro. Apenas esses seres humanos da manhã é que conseguem viver o sol de cada dia e não se cansar de sua luz, porque ser criança é ter luz. Ser criança é viver amanhecendo, é nunca acordar, é não se preocupar com roupas, status, críticas, em parecer, em perecer, ter, estar e ser. Sempre fui saudoso, e já na manhã de minha vida sentia-me constantemente nostálgico. Na maioria das vezes apenas observava em extremo silêncio as crianças que eram a própria manhã; eu mesmo sempre fui um expectador do dia, da calma, da alegria, muitas vezes sentia-me, e ainda hoje percebo esse aspecto próprio, feliz apenas em quedar-me observando os sóis de minhas manhãs, das quais nunca fui eu próprio qualquer tipo de sol. Mas isso não é ruim, tampouco triste, pois se me recordo dessa época é com sincera alegria e muita saudade, a qual é a prova dos nove da alegria.
É curioso a maneira com a qual ainda hoje me surpreendo assistindo a vida dos outros: não por curiosidade futriqueira ou por falta do que fazer, mas por admiração; não por inveja ou por preconceitos, mas por sincero interesse e surpresa, pois sim, a vida ainda tem me surpreendido, principalmente a vida dos outros. Os outros são especiais, românticos, altivos, sinceros, falsos, espaciais, amigos, inimigos, casados, solteiros, crianças, velhos, surtados, esportistas, escritores, leitores, cômicos, trágicos, cheirosos, fedidos, adjetivos. Subjetivos. Os outros, vocês, continuam me surpreendendo. E todos já foram crianças! Dá pra imaginar? Pois é o que eu tento, pois imaginar o outro quando criança é dar crédito à paciência, à cordialidade. Ainda é possível olhar nos olhos de cada um e ver traços de luz.
Amanhecer é preciso.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

EU

E no primeiro
Do caso reto?
Que outros pronomes
Procuram teto?

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Homenagem à melhor amiga do homem


E sua tristeza era tanta que nela os carinhos que fazia tinham o efeito de pranto, que ecoava pelo corredor do prédio e entrava por entre as fechaduras das portas trancadas à melancolia, e em pouco tempo o choro em dó transformava-se em lágrimas nos olhos dos que ouviam desprevinidos, por assim dizer, o som do pranto. Únicos em seu quarto: ele e ela. Suas mãos por entre seus fios trágicos e graves a faziam estremecer de súbito e, como um susto, chorar junto com ele.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Quem somos?

Uma aposta:
pra essa pergunta
não há resposta.

domingo, 28 de setembro de 2008

Carmen




A Carmen e os seus olhos dormidos. A primeira imagem que me vem à cabeça quando penso na Carmen são seus claros olhos soturnos e lentos. Ao andar, anáguas de tempos imemorias conferem-lhe movimentos seculares que afastam as pessoas de sua frente com ondas de vento quente e cortante, como que mostando que o próprio destino dessas pessoas – infelizes transeuntes – é justamente o de deixar o caminho livre para que o que é vivo de fato aconteça.
Seu tronco é o pilar central do mundo e, com altivez de bailarina, sustenta-o como se tivesse nascido para fazê-lo. É perigoso pensar que, por conta de seus passos em pluma e sincronizados, a tarefa é fácil. Não caro amigo; desavisado amigo. Repara-lhe os olhos: acaso não vês o quanto de peso há sobre eles? Todo o peso do mundo, o peso da humanidade: o saber-se só. Tudo na Carmen é mágico. Tudo sobra, tudo falta e, assim, ela é completa.
A única pessoa do mundo que, possuindo dois vetores em direções opostas consegue, ainda assim, mover-se, é a Carmen. Ela pára e no entanto seu olhar continua caminhando, seguindo um rumo que é o próprio caminho que dali a pouco ela mesma cumprirá. Alinhava seu destino com seus olhos verdes e grandes. Longínquos.
A nós a Carmen não nos olha nos olhos: é em nossas almas que pousa seu olhar. Incontrolável devassa que em segundos nos deixa nus, ali, desprotegidos e ridículos em frente àqueles dois olhos que mais parecem dois mundos.